PARTICIPAÇÃO E PRESENÇA DE CRISTÃOS LEIGAS E LEIGOS NA IGREJA E NA SOCIEDADE.

PARTICIPAÇÃO E PRESENÇA DE CRISTÃOS LEIGAS E LEIGOS NA IGREJA E NA SOCIEDADE.

24 de agosto de 2020

 

Estamos vivendo em uma sociedade muito complexa, fragmentada e, não raras vezes, contraditória quanto a coerência na vivência dos valores cristãos.

Por: Ivenise Teresinha Gonzaga Santinon

Assim, ao se pensar em cristãos leigos e leigas a nossa primeira tarefa está no entendimento correto de quem são esses sujeitos chamados leigos e leigas na Igreja e no mundo, ou seja, quem são essas pessoas que assim as denominamos e como são compreendidas nos espaços em que atuam.

A dificuldade consiste em conhecer o exato significado da palavra “leigos/as”, que, equivocadamente, é associada ao sinônimo de alguém que é “por fora” de um determinado acontecimento ou contexto. A partir desse equívoco o/a leigo/a ou, como podemos denominar, toda a pessoa leiga acaba por ser considerada como alguém que não tem autonomia na sua atuação, muito menos tem domínio em um determinado contexto ou conteúdo.

Ao afirmamos que “leigos” origina-se da palavra grega “laikos” que significa povo, essa compreensão equivocada ganha um novo sentido, tanto na Igreja quanto na sociedade e pode, com isso, levar a se pensar na participação e na pertença efetiva de leigos e leigas nas diversas esferas em que atuam como cristãos. Daí tal condição marca de forma eficaz um espaço de atuação, pois se compreende o papel real de todos e todas que acontece em uma teia de complexidade dos rumos históricos, e nela se consegue visualizar, sem ofuscamentos, os caminhos realmente trilhados por cristãos, leigos e leigas, sobretudo na visão positiva indicada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965).

Nesse sentido, a Igreja católica há mais de 5 décadas padece de desafios próprios que lhes são oriundos das relações inerentes aos leigos, leigas e clérigos, sejam por fatos as vezes corriqueiros, encobertos e perpetuados pela história cristã, sejam pelas participações nas múltiplas relações exercidas na Igreja, e que se desenvolveram a partir de uma compreensão sacramental que se tem do Batismo.

Leigos e leigas foram desconsiderados por muito tempo em detrimento de uma teologia sacramental que privilegiava clérigos, reconhecendo os seus poderes e deixando leigos e leigas à mercê de suas ordens. Isso infelizmente ainda ocorre em alguns lugares diante de uma formação teológica desatualizada. Ainda vemos, infelizmente, se institucionalizar estruturas patriarcais configuradas em serviços hierarquizados, masculinas e brancas.

Advindos desse equívoco teológico, ingenuamente ainda os leigos e leigas não são entendidos por muita gente que não consegue entender a sua atuação e a sua pertença na Igreja. Há quem lute e insista em seu significado deturpado, mesmo que tenha valores distorcidos da prática de Jesus de Nazaré, ou seja do Evangelho.

Esse novo entendimento teológico indicado pelo Concílio Vaticano II (Lumen Gentium 34-36) aprofundou a participação própria das leigas e dos leigos na tríplice função batismal. Mais tarde tal compreensão foi retomada pela Christifideles Laici (1988 – no.14) e estes importantes documentos encararam a necessidade da Igreja se abrir diante de desafios que há anos se convivia, e de modo equivocado e injusto.

Nesse sentido, no Brasil, o Doc. 62 da CNBB (1999) já salientou que o “Concílio Vaticano II mostrava a necessidade de se descrever positivamente os leigos e as leigas partindo do batismo e da sua incorporação a Cristo, e na sua constituição integral no Povo de Deus…estes que exercem, pela sua parte específica e de igual importância, a missão do povo cristão na Igreja e no Mundo”.

Portanto, aos poucos vai se tentando superar a divisão entre “clérigos na Igreja e os leigos e leigas no mundo” e se instaurando uma nova mentalidade que expresse exatamente a condição essencial e real de todos cristãos e cristãs a partir da compreensão teológica do Sacerdócio Comum em Cristo, onde a partir do Batismo todos e todas são partícipes de uma mesma missão da Igreja presente no mundo.

Assim, diante das inúmeras situações complexas oriundas do mundo atual onde os leigos e as leigas, mais de perto, sobrevivem em meio às angústias e às esperanças de ser Povo de Deus, surge a necessidade fundamental de se compreender a vocação e a presença dos leigos e leigas na Igreja e na sociedade.

Aos poucos foi se vendo a necessidade de se buscar alternativas que poderiam solucionar os sérios e tradicionais problemas eclesiais, fundamentalmente os “hierarcológicos” (Ives Congar). Estes que são muitos e não mais respondem às expectativas do Povo de Deus, principalmente aqueles que diante das mudanças trazidas pelo mundo moderno não mais são explicados pela teologia e tolerados pelas pessoas formadas, aquelas comprometidas com a presença da Igreja na sociedade.

Ao se protagonizar a atuação eclesial dos cristãos leigos e das leigas, eles e elas se tornam imperativos para se compreender a Igreja presente no mundo. São estas pessoas, os sujeitos eclesiais, cidadãos e cidadãs, que conhecem profundamente os desafios da atualidade e procuram no dia a dia viver com a missão de ser anunciadores da Boa Nova, e sobreviver diante de crises políticas, econômicas, culturais, sociais, éticas, e entre essas, as religiosas.

E para que a missão da Igreja se torne participativa, real, palpável e, sobretudo, eficaz aos mais vulneráveis, o Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (20), chamou a nossa atenção aum novo e necessário dinamismo eclesial: a construção de uma Igreja “em saída”; e “pobre para os pobres” ao pedir: “Não os deixemos jamais sozinhos” (48). Esse é o papel a ser assumido por todos e todas cristãos/ãs, leigos e leigas, nos mais diversos ministérios que lhes sejam confiados.

2.1. A importância das leigas em uma Igreja toda ministerial

Numa sociedade classista, patriarcal e individualista como a nossa, não custa de a Igreja, muitas vezes, inocentemente, reproduzir sistemas injustos. Quando isso ocorre, os ministérios são os primeiros a serem copiados e, daí não mais legitimados pela marca indelével do nosso Batismo, mas pela força capitalista e de poderio das hierarquias.

Em uma Igreja toda ministerial, todas as pessoas cristãs devem ser reconhecidas e consideradas igualmente, pois ela abre portas para todos serem testemunhas do Evangelho, em iguais condições. E nesse sentido, ao falarmos de leigas e leigos, devemos lembrar que as Igrejas cristãs têm uma dívida milenar para com as mulheres.

O teólogo Cesar Kuzma afirma: “em sua trajetória na história da Igreja, na sua condição de igualdade de gênero, na liderança pastoral e comunitária, na pregação, na formação teológica, no exercício de ministérios”, as mulheres devem ser reconhecidas dignamente, tanto na Igreja quanto na sociedade”.

E o Papa Francisco, em sua Homilia na Casa Santa Marta, no domingo, 09 de fevereiro de 2017, citou: “explorar uma mulher não é somente um crime, mas é destruir a harmonia entre todos”. Pelo batismo, nós mulheres somos inseridas igualmente na Igreja Povo de Deus ao participarmos, indistintamente, do múnus sacerdotal, profético e régio de Jesus Cristo.

Recebemos aí a condição de sermos sujeitos e protagonistas, na mais profunda unidade entre os membros da Igreja, participando  integralmente do projeto evangelizador e, sem distinções de serviços, tem efetivamente a corresponsabilidade na missão. E ao atuarmos de forma autônoma, seremos pessoas co-criadoras do Reino e promotoras de um mundo mais justo, igualitário, fraterno e sustentável.

Enfim, estamos vivendo um difícil momento onde cotidianamente somos ameaçados e ficamos impactados com uma porção de situações de desgovernos, de agressões de pessoas e de divisões de opiniões e estruturas. Estas se conflitam e ocorrem não apenas individualmente, mas de forma coletiva, pública e privada, em muitas instituições sociais, políticas e religiosas.

E é aí nas religiosas é o momento de se viver o Vaticano II que já há mais de meio século nos impele a revitalizar a Igreja, confiar nos ministérios e à luz da criatividade do Espírito, (DAp.n.99c) estender à participação e à presença dos leigos e leigas, como premissas verdadeiras do Evangelho e Doc 105.

Sermos Sal da Terra e luz do mundo. Assim, em meio à crise profunda que aflige a sociedade atual, cujos valores humanos e evangélicos muitas vezes se encontram enfraquecidos ou distorcidos, nada poderá obscurecer a nossa condição batismal, imprescindível preferencialmente aos pobres, os primeiros protagonistas do Evangelho.

FONTE: CNLB Nacional